A Marinha dos Estados Unidos está considerando formalmente uma mudança histórica na sua frota de elite: alterar o nome do futuro porta-aviões de propulsão nuclear USS Doris Miller (CVN-81), batizado em homenagem ao marinheiro negro que se tornou herói nacional na Segunda Guerra Mundial, para homenagear o ex-presidente Donald Trump. A revelação, trazida à tona por investigações jornalísticas dos repórteres Lara Seligman e Paul McLeary do portal de notícias Politico, acendeu um debate inflamado nos corredores do Pentágono e no Congresso americano.
A escolha do porta-aviões Doris Miller havia sido anunciada em janeiro de 2020 pelo então Secretário da Marinha Thomas Modly, marcando um feito inédito na história militar dos Estados Unidos. Foi a primeira vez que um porta-aviões de primeira linha recebeu o nome de um marinheiro alistado afro-americano, rompendo com a longa tradição militar de batizar essas gigantescas embarcações com nomes de presidentes americanos ou batalhas lendárias.
Agora, a possibilidade de reaproveitar o casco do CVN-81 para rebatizá-lo com o nome de Donald Trump reacende disputas geopolíticas e raciais sobre memória militar, representatividade e critérios éticos na concessão de homenagens das Forças Armadas americanas. Mais adiante você vai entender o impacto prático que essa decisão pode causar na liderança naval do país.
Por que a Marinha avalia renomear o embarcação?
A discussão interna na Marinha dos EUA envolve revisões de protocolos e pressões políticas partidárias em Washington. A nomeação de navios de guerra de grande porte sempre esteve atrelada à discricionariedade do Secretário da Marinha em exercício, autoridade civil responsável por ratificar as homenagens aos cascos da frota em construção.
Fontes ligadas ao Departamento de Defesa apontam que conselheiros militares argumentam que a tradição dominante das últimas décadas sempre privilegiou ex-presidentes dos Estados Unidos para a categoria de superporta-aviões da classe Gerald R. Ford. O primeiro navio da classe levou o nome de Gerald Ford (CVN-78), seguido por John F. Kennedy (CVN-79) e Enterprise (CVN-80).
A inclusão do nome de Doris Miller no CVN-81 havia sido uma exceção calculada para reconhecer a contribuição crucial dos negros americanos nas Forças Armadas. Contudo, defensores da mudança afirmam que garantir a homenagem ao ex-presidente Donald Trump em uma embarcação de grande porte alinha-se aos precedentes históricos estabelecidos por administrações anteriores.
Esse detalhe muda tudo na forma como o Pentágono lida com o legado militar, pois a alteração do nome de uma embarcação já anunciada publicamente é um evento extremamente raro e politicamente sensível na diplomacia naval dos Estados Unidos.
Quem foi Doris Miller e por que sua história importa?
Doris Miller, conhecido carinhosamente como “Dorie”, nasceu em Waco, no estado do Texas, em 1919. Quando se voluntariou para a Marinha dos Estados Unidos em 1939, a segregação racial impunha severas restrições aos cidadãos negros, que eram confinados a funções de serviço e alimentação, sem autorização para treinamento formal em manuseio de armas de combate.
No dia 7 de dezembro de 1941, durante o ataque surpresa das forças navais do Japão a Pearl Harbor, Miller atuava como marinheiro de terceira classe a bordo do encouraçado USS West Virginia. Quando as primeiras explosões atingiram a embarcação, ele demonstrou uma coragem extraordinária que mudaria para sempre a história das Forças Armadas.
Mesmo sem treinamento prévio no uso de armamentos pesados, Doris Miller assumiu o comando de uma metralhadora antiaérea Browning de calibre .50 e disparou contra os aviões inimigos até que a munição se esgotasse. Além disso, sob intenso fogo cruzado, carregou vários marinheiros gravemente feridos para locais seguros, incluindo o próprio comandante do navio, Mervyn Bennion.
- Reconhecimento histórico: Miller foi o primeiro afro-americano a receber a Cruz da Marinha (Navy Cross), a segunda maior condecoração por bravura em combate dos EUA, entregue pessoalmente pelo Almirante Chester W. Nimitz em 1942.
- Sacrifício final: Doris Miller continuou servindo na Segunda Guerra Mundial e foi declarado morto em combate em novembro de 1943, após o porta-aviões de escolta USS Liscome Bay ser afundado por um torpedo submarino no Oceano Pacífico.
- Símbolo de igualdade: Sua postura destemida impulsionou os primeiros passos rumo à integração racial definitiva no Exército e na Marinha dos Estados Unidos, consolidada anos mais tarde pelo presidente Harry S. Truman.
Para quem busca compreender mais detalhes sobre a evolução das forças armadas globais, vale a pena conferir análises detalhadas sobre história militar e geopolítica disponíveis em nosso portal informativo.
A polêmica política em Washington e as reações no Congresso
A eventual oficialização da troca de nome do CVN-81 gerou reações imediatas entre parlamentares do Congresso americano, líderes dos direitos civis e associações de veteranos de guerra. Integrantes da Bancada Negra do Congresso (Congressional Black Caucus) classificaram a iniciativa como um retrocesso injustificável para a memória da igualdade racial no país.
Por outro lado, aliadores políticos de Donald Trump defendem que a homenagem ao ex-presidente reflete a expansão orçamentária militar promovida durante sua gestão na Casa Branca, ressaltando o fortalecimento da frota naval e a criação da Força Espacial dos EUA como justificativas plausíveis para dar o seu nome ao novo superporta-aviões.
Especialistas em defesa ouvidos pelo jornalista Eric Schmitt, do jornal The New York Times, ressaltam que politizar os nomes dos ativos estratégicos da Marinha pode criar um precedente instável, onde cada mudança de governo resultaria na alteração de nomes de navios em fase de construção naval nos estaleiros da Huntington Ingalls Industries.
Como funciona a escolha dos nomes dos navios da Marinha dos EUA?
A autoridade final para batizar qualquer embarcação da Marinha americana pertence unicamente ao Secretário da Marinha, agindo sob supervisão direta do Secretário de Defesa e do Presidente dos Estados Unidos. Embora existam diretrizes tradicionais, não há leis rígidas que impeçam a alteração de nomes antes do comissionamento oficial do navio.
A tradição para superporta-aviões evoluiu ao longo das décadas:
- Século XX: Navios recebiam nomes de batalhas históricas lendárias, como USS Yorktown, USS Midway e USS Coral Sea.
- Era Moderna: A partir da classe Nimitz, passou-se a adotar preferencialmente nomes de presidentes norte-americanos, como Dwight D. Eisenhower, Abraham Lincoln e George Washington.
- Exceções Notáveis: Nomes como USS Carl Vinson e USS John C. Stennis homenagearam congressistas de grande relevância na aprovação do orçamento de defesa naval.
Você pode acompanhar outros artigos relevantes sobre inovações navais navegando por matérias focadas nos avanços da tecnologia de defesa global publicados no Portal Super Interessante.
O que dizem os especialistas em história e estratégia militar?
Historiadores navais e analistas geopolíticos alertam para o impacto cultural de remover a homenagem a Doris Miller. O historiador militar Thomas Allen argumenta que a escolha do nome de Miller representou um momento de maturidade para a Marinha ao reconhecer que o heroism em combate ultrapassa patentes corporativas e posições políticas partidárias.
“Doris Miller simboliza todos os homens e mulheres que serviram com distinção em circunstâncias adversas de discriminação. Trocar o nome de uma embarcação já atribuída a ele pode emitir uma mensagem negativa para os futuros recrutas”, avalia a análise técnica divulgada pelo Centro de Estratégias Navais de Washington.
Apesar da intensa especulação, porta-vozes do Pentágono declararam oficialmente que todas as opções de nomenclatura continuam sob análise do Gabinete do Secretário da Marinha, e nenhuma alteração contratual com os estaleiros de Newport News foi formalizada até o momento.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quem foi Doris Miller e qual foi sua ação em Pearl Harbor?
Doris Miller foi um marinheiro afro-americano que, durante o ataque a Pearl Harbor em 1941, mesmo sem treinamento específico, assumiu uma metralhadora antiaérea e socorreu diversos companheiros feridos a bordo do USS West Virginia. Ele foi o primeiro negro a receber a Cruz da Marinha.
Por que o porta-aviões CVN-81 foi batizado com o nome de Doris Miller?
O navio foi batizado como USS Doris Miller em 2020 para prestar uma homenagem inédita a um marinheiro alistado negro, quebrando a tradição de usar exclusivamente nomes de ex-presidentes e batalhas para superporta-aviões da classe Gerald R. Ford.
A Marinha dos EUA já confirmou a mudança de nome para Donald Trump?
Até o momento, a Marinha dos Estados Unidos realiza estudos internos e discussões políticas sobre a proposta, mas não oficializou a alteração do nome do casco CVN-81 junto aos estaleiros de produção naval.
Considerações Finais
O debate que envolve a nomeação do superporta-aviões CVN-81 vai muito além de uma simples placa de metal afixada ao casco de uma embarcação de guerra. Ele reflete as tensões contemporâneas sobre memória histórica, valorização de heróis populares e a influência política sobre as estruturas militares mais emblemáticas do planeta. Quer se mantenha a homenagem a Doris Miller ou se opte por consagrar o nome de Donald Trump, a decisão deixará marcas profundas na diplomacia naval dos Estados Unidos.
Continue acompanhando o Portal Super Interessante para mais análises profundas, atualizações geopolíticas e notícias em primeira mão sobre os acontecimentos mais relevantes do Brasil e do mundo.