A Importância do “Invisível” no Espetáculo
Quando as luzes se apagam e o último acorde de “Dias Melhores” ecoa pelo estádio, o público, extasiado, volta para casa com memórias visuais e sonoras dos cinco integrantes famosos do Jota Quest. Contudo, raramente paramos para pensar na engrenagem humana que torna essa magia possível. Nesse sentido, a perda de Renato Tommaso, técnico de palco e fiel escudeiro da banda por quase duas décadas, não foi apenas uma baixa na equipe; foi um terremoto emocional que expôs a alma de quem vive na estrada.
Embora a notícia de seu falecimento, aos 54 anos, tenha chocado os fãs no final de 2024, o legado deixado por Renato transcende a data do luto. De fato, sua história serve como um poderoso lembrete sobre a humanidade existente atrás das cortinas pretas dos palcos. Portanto, este artigo não é apenas uma notícia sobre uma perda, mas uma celebração da vida de um profissional que dedicou sua existência à arte de servir à música, garantindo que o show, literalmente, não parasse.
Quem Foi Renato Tommaso?
Primeiramente, é essencial entender quem foi a figura por trás do nome. Renato Tommaso não era apenas um funcionário contratado; ele era parte do DNA do Jota Quest. Durante cerca de 18 anos, ele atuou como roadie (técnico de apoio), sendo o braço direito, especialmente, do baixista PJ. Ou seja, cada linha de baixo pulsante que ouvimos nos hits da banda mineira passou, antes, pelas mãos cuidadosas de Renato, que garantia a afinação, a timbragem e a manutenção dos instrumentos.
Além disso, Renato era descrito pelos colegas como uma figura paterna e um amigo leal. Consequentemente, sua presença nos bastidores trazia uma estabilidade emocional necessária em um ambiente de alta pressão como uma turnê nacional. Ele deixou esposa, Dani, com quem foi casado por 29 anos, e uma filha, Renata. Dessa forma, a dor manifestada pela banda nas redes sociais — onde o definiram como “família” — reflete o buraco insubstituível que sua partida deixou na dinâmica do grupo.
O “Sexto Elemento” da Banda
Frequentemente, ouvimos falar que o produtor é o quinto ou sexto membro de uma banda. No entanto, no caso do Jota Quest, a equipe técnica, personificada em Renato, ocupa esse lugar de honra. Por exemplo, em turnês comemorativas como a “Jota25”, a complexidade técnica exige uma sintonia fina entre músico e técnico. Assim sendo, Renato não apenas “carregava caixas”, como o senso comum pode sugerir erroneamente; ele era um especialista em áudio e luthieria (ajustes de instrumentos), cuja expertise permitia que PJ brilhasse sem preocupações técnicas.
Nota: A relação entre um músico e seu roadie é de total confiança cega. Se o técnico falha, o artista falha. Renato Tommaso nunca falhou.
A Reação da Banda e a Dor do Luto
Imediatamente após a confirmação do falecimento, a reação dos integrantes do Jota Quest foi de devastação visível. Por isso, as declarações públicas não seguiram o protocolo frio de notas de falecimento de assessorias. Pelo contrário, foram desabafos de irmãos que perderam um irmão.
Sobretudo, o baixista PJ, que convivia lado a lado com Renato no palco (o técnico geralmente fica posicionado na lateral do amplificador do músico), expressou que seria “difícil fazer um show e não lembrar dele”. Nesse contexto, essa frase resume a onipresença de Renato. Afinal, para um músico, olhar para o lado e ver seu técnico é o porto seguro durante a performance. Logo, a ausência física de Renato no palco transformou-se em uma presença espiritual constante em cada apresentação subsequente da banda.
Ademais, Rogério Flausino e os demais integrantes reforçaram a solidariedade à família de Renato, mostrando que o Jota Quest opera sob uma filosofia de clã, onde a equipe técnica não é descartável, mas sim a fundação sobre a qual o sucesso é construído.
A Vida de Roadie: O Que Ninguém Vê
Para que possamos valorizar verdadeiramente a memória de profissionais como Renato Tommaso, precisamos desmistificar e valorizar a profissão de roadie. Infelizmente, muitos fãs desconhecem a rotina exaustiva desses heróis anônimos. A seguir, detalhamos a realidade dessa profissão crucial:
1. Primeiros a Chegar, Últimos a Sair
Enquanto a banda chega ao local do show horas antes da apresentação, a equipe de Renato já estava lá desde a madrugada. De fato, a montagem de som, luz e palco (o load-in) começa muito cedo. Posteriormente, após o fim do show, quando a banda já está no hotel ou no avião, os técnicos ainda estão desmontando toneladas de equipamento (o load-out).
2. O Guardião do Som
Especificamente, a função de Renato envolvia garantir que o baixo de PJ estivesse impecável. Isso significa trocar cordas regularmente, ajustar a altura e a oitava do instrumento, verificar cabos, pedais e amplificadores. Por conseguinte, qualquer ruído indesejado ou falha de sinal durante o show seria responsabilidade dele resolver em segundos, muitas vezes no escuro e sob pressão extrema.
3. Psicologia de Bastidor
Além de técnicos, os roadies acabam sendo psicólogos dos músicos. Visto que eles convivem em ônibus de turnê e hotéis por meses a fio, são eles que ouvem os desabafos, acalmam os nervos antes do show e celebram as vitórias. Certamente, Renato desempenhava esse papel com maestria, dada a longevidade de sua permanência na equipe.
Saúde e Segurança: O Preço da Estrada
Inegavelmente, a morte precoce de Renato Tommaso, aos 54 anos, levanta discussões importantes sobre a saúde dos profissionais da estrada. Embora a causa específica seja mantida em privacidade pela família (uma atitude que deve ser respeitada), é sabido no meio musical que a vida de turnê é fisicamente e mentalmente desgastante.
Por um lado, há o sono irregular, a alimentação muitas vezes rápida e o estresse constante dos horários. Por outro lado, a paixão pela música é o combustível que mantém esses profissionais ativos. Entretanto, o setor tem discutido cada vez mais a necessidade de pausas, exames regulares e melhores condições de descanso para as equipes técnicas, ou “graxa”, como são carinhosamente chamados no Brasil.
Dessa maneira, a perda de Renato serve como um alerta para a indústria: cuidar de quem cuida do show é vital. Assim, homenageá-lo é também lutar por um ambiente de trabalho cada vez mais saudável para as futuras gerações de técnicos que se inspiram em sua trajetória.
O Legado de Renato na Comunidade Técnica
Não apenas a banda sentiu a perda, mas toda a comunidade de técnicos de som e roadies do Brasil. Eventualmente, em festivais grandes como o Rock in Rio ou Planeta Atlântida, as equipes das bandas se cruzam e se ajudam. Nesse cenário, Renato era conhecido por sua competência e generosidade.
Consequentemente, as redes sociais foram inundadas por mensagens de colegas de outras bandas — Skank, Capital Inicial, Paralamas — lamentando a partida de um “irmão de estrada”. Isso demonstra que, acima da concorrência entre artistas, existe uma irmandade sólida entre as equipes técnicas. Portanto, o nome de Renato Tommaso fica gravado no panteão dos grandes profissionais que ajudaram a elevar o nível do profissionalismo nos shows ao vivo no Brasil nas últimas décadas.
Como os Fãs Podem Homenagear
Muitas vezes, os fãs perguntam como podem ajudar ou prestar condolências em situações assim. No caso de Renato, a melhor homenagem é o reconhecimento. Sempre que você for a um show do Jota Quest ou de qualquer outra banda, olhe para as laterais do palco. Lá, você verá figuras vestidas de preto, atentas, trabalhando para sua diversão.
Então, aplauda a banda, mas lembre-se de que aquele som perfeito só existe porque houve um Renato Tommaso ali antes. Ademais, respeitar o luto da banda e enviar energias positivas para a família através das redes oficiais, sem especulações, é a forma mais digna de demonstrar carinho.
Conclusão: O Show Continua, Mas a Saudade Fica
Em suma, a morte de Renato Tommaso não é apenas uma nota de rodapé na história do Jota Quest. Ao contrário, é um capítulo doloroso, mas cheio de amor e gratidão. Por 18 anos, ele foi a segurança invisível que permitiu que a banda voasse alto.
Agora, enquanto o Jota Quest segue sua jornada, levando alegria para multidões, há uma nova estrela no céu da música brasileira. Ainda que ele não esteja mais fisicamente afinando o baixo ou passando o som, a excelência que ele imprimiu no trabalho da banda permanece. Por fim, que a memória de Renato inspire roadies, músicos e fãs a valorizarem cada segundo da magia que é a música ao vivo. O show deve continuar, mas a gratidão por quem o fez acontecer será eterna.



